segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Antígona do Neura



A espinha que poderá ser o novo espetáculo do Teatro da Neura com a tragédia de Sófocles "Antígona" já está formada.

Fico aqui pensando por quantas situações fomos obrigados a lidar com esse processo tão longo e me vejo numa constatação bem clara: arte definitivamente não é pra qualquer pessoa mesmo.

Nós podemos tocar algum instrumento, interpretar bem determinado texto, escrever bem algumas poesias ou expor obras em telas ou instalações até que bacanas, mas o que nos tornará artistas em potencial é a dedicação, a superação, a luta que travaremos pra continuar nessa crise pessoal que é a criação de algo novo.

Precisa ter coragem.

E agora, num processo que ao todo já contou com 15 pessoas no elenco, hoje contar com 8 já mostra que as transformações foram enormes. E teve de tudo: crises pessoais, vaidades mascaradas de crises pessoais, insegurança, exclusão, covardia, circunstâncias desse mundo capitalista, circunstâncias do mundo socialista, ego mesmo - daqueles bem inflados -, descobertas individuais e coletivas, ganhos, conquistas, lágrimas, risos e foco.

Acho curiosíssimo que essas características - individuais - tenha surgido justamente num processo contornado pela dramaturgia brechtiniana que propõe uma luta coletiva acima das briguinhas menores, mesquinhas.

Nosso amigo Brecht ainda nos joga na cara nossas contradições mesmo que não o conheçamos completamente. Viva!

Do que ficou, resta a reta final. Somos, meus amigos de Neura, lutadores e admiro a paciência que tivemos até agora. Alguns, convictos dos rumos que tomaram - justo ao meu ver, pelo menos não ficaram atrapalhando, infelizes - nos aplaudirão e nos abraçarão; outros acredito que sentiremos o riso com cara de azia e com observações típicas de quem vê de fora "comosenadativessecomaquiloqueviu".

VIVA ANTÍGONA das lutas impossíveis mas necessárias!
VIVA ISMÊNIA da omissão na vida, nos outros, em nós!
VIVA CREONTE que nos explora, que consumimos, que fortalecemos!
VIVA HÉMON, arauto de um Estado mais cuidadoso e sempre rechaçado!
VIVA TIRÉSIAS das visões que ninguém ousa olhar para poder seguir em frente sem responsabilidades!
VIVA GUARDA das mensagens urgentes, ofegantes e tardias!
VIVA CORO que segue os passos dessa classe média podre que não vê um palmo diante do nariz!

Eles estão em nós. E convivemos com eles nesse processo grandioso que Sófocles, Brecht e Teatro da Neura nos ofereceram.

Que venham as danças!!!

visitem o blog da peça se tiverem tempo

www.antigonaneura.blogspot.com

sábado, 5 de setembro de 2009

Cia do Escândalo - Intolerância

Num mundo cada vez mais individualista e com as liberdades individuais indo pro espaço sem nos darmos conta, tratar de intolerância é sempre um buraco fundo que, ao descermos, raspamos pelas bordas do buraco e nos ferimos.

A arte é uma ferramenta para discutirmos esse tema, com certeza. E a Cia do Escândalo foi pra essa empreitada de forma cabal: coloca o nome da peça de Intolerância e a trama é bem direta, ou seja, um acidente de trânsito que acaba em tragédia com consequências psicológicas posteriores.

A concepção estética propõe quase um ritual pela cabeça de pessoas que são invadidas pelo seu individualismo mas que sempre sentem falta do coletivo. Isso aparece bem claro e me vem como uma denúncia. Ligados ao mundo pelos seus casulos sociais - carro, computador, trabalho - acabam por não se sentir mais humano e aí se perdem do seu próximo (mesmo que não o conheça).

E aí já se percebe que a tentativa avança numas questões, mas deixa uns vazios em outras. A quebra de cenas constantes feitas pela luz interrompe uma ligação que acho fundamental com o tema proposto. Porque a platéia está alí, convidada a participar e a refletir com o trauma que os personagens passam mas, por algum motivo, isso é interrompido constantemente.

Não somos só razão. Somos sentimentos também. E sentir, num mundo cada vez mais racional é uma proposta que o espetáculo pode aprofundar mais. Compartilhar também a emoção e deixar que a razão nos invada - porque somos treinados pra isso desde pequenos - nos momento apropriado, quando quizermos.

Impressionante a verdade de Ju Penteado em cada cena e como não parece interpretação o que ela faz! Uma qualidade que ajuda muito a entender a peça e como ela pode chegar. energia pura e com um vitalidade sempre renovada.

A Cia do Escândalo nunca nos deixará ver uma peça e pensar uma coisa só sobre ela. É uma pegada de grupo mesmo.

Assinatura.

E acho que assinatura é assim mesmo. Seja com caneta forte ou falhando, você reconhece sempre.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Conferência é Oportunidade de Conquistas


Meus caros, passou da hora de investirmos nosso tempo apenas na produção artística e passarmos a trabalhar árduamente para pensamentos além daquilo que pensamos como arte. E é lógico que estou falando de políticas públicas.

Não dá pra esperar que o poder público dê sua parte nesse bolo.

Já está dado que, mesmo num governo bem popular - como o é a Prefeitura de Suzano - as conquistas políticas que perdurarão não estão nem perto do início da conversa.

Em parte porque a classe artística da cidade ainda não se apoderou de todos os instrumentos para efetivamente saber o que cobrar, reivindicar e construir junto. Mas também porque sempre há uma resistência em criar políticas onde o poder publico não seja o protagonista da atividade: é daí que que se vê a resistência de orçamento da cultura sem vínculos com as áreas mesmo com casos extremamente bem sucedidos como a Lei de Fomento para o Teatro da Cidade de São Paulo.

Mas deve-se ocupar os espaços que nos dão. E a Conferência é uma chance bem especial. Na pior da hipóteses a gente vai aprendendo a lidar melhor com a coisa pública.

Fico no aguardo que o pessoal do teatro esteja presente para que consigamos avançar nos nossos desejos. É dificil. É complicado. Mas é fundamental.

Eita vida difícil.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Bertolt Brecht 1898 - 1956


LISTA DE REFERÊNCIAS DE ORGE

Alegrias, as desmedidas.
Dores, as não curtidas.

Casos, os inconcebíveis.
Conselhos, os inexequiveis.

Meninas, as veras.
Mulheres, insinceras.

Orgasmos, os múltiplos.
Ódio, os mútuos.

Domicílios, os temporários.
Adeuses, os bem sumários.

Artes, as não rentáveis.
Professores, os enterráveis.

Prazeres, os transparentes.
Projetos, os contingentes.

Inimigos, os delicados.
Amigos, os estouvados.

Cores, o rubro.
Meses, outubro.

Elementos, os fogos.
Divindades, o Logos.

Vidas, as espontâneas.
Mortes, as instantâneas.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

O Coletivo e o Indivíduo


O momento de organização da classe teatral em Suzano passa por um limiar bem tênue entre um coletivo preocupado com assuntos da classe artística enquanto um discurso de classe trabalhadora que oferece seus conhecimentos (que é a produção artística de alguma idéia que sirva ao bem comum) e o bem individual, que visa a ascenção pessoal sem uma preocupação em criação de políticas públicas e sim fazer do poder público balcão de pedidos isolados e sem interesse maior.

E essa luta não é fácil porque o individualismo nos empurra cada vez mais para pressões que acabam levando a todos para uma luta de foices, espadas e chicotes somente para alcançar algum tipo de privilégio e garantir - mesmo que momentâneamente - privilégios sem olhar o que isso reflete em volta.

E essa manifestação de individualismo se deu na última reunião do Coletivo Cênico de Suzano que, depois de ter determinada na reunião anterior que discutiríamos sobre políticas públicas, nessa nem 5% das pessoas não estavam. Simples assim!!!

E aí fico perguntando se realmente é o momento de discutir assuntos tão elevados. Se não é melhor a classe perder algumas conquistas para perceber que, se querem viver disso, se efetivamente o tempo que usam para o teatro é o tempo que querem usar pela vida toda, é necessário luta constante e que avance nas lutas individuais.

Só sei que saio desmotivado e percebo que minha luta terá que caminhar pra um confronto mais direto e contundente se eu quiser ajudar a organizar isso que chamamos de classe.

Acho que a luta contra o individualismo é maior do que eu imaginava.