
Ouço as vezes um certo saudosismo em vozes teatrais quando se fala que o Teatro Amador é bom porque ele é experimental, sem medo de errar e que faz tudo isso por amor a arte. E criticam o teatro mais encorpado porque se distancia da platéia por querer elaborar mais o pensamento e assim levam o nome de "teatro cabeção".
Há quem diga que foi o teatro cabeção o grande responsável pelo afastamento do público nas salas de espetáculo - seja lá onde ela estiver.
Sem querer entrar no mérito - ainda - de qual é a responsabilidade do afastamento do público em teatro - se é que há isso-, é cabal pensar que o público dá para o espetáculo exatamente e na mesma proporção que o espetáculo dá para o público.
De alguma maneira misteriosa essa troca acontece. E quanto mais eu vejo boas peças, mas é perceptível alguns itens que sempre aparecem.
1) Conceito fechado no pensamento mas aberto na leitura: quanto mais o elenco entender o que está falando, sobre qual tema a peça trata e qual sua intenção em cada fala, em cada cena, mais claro será compreender o jogo. Porque o jogo deve ser trocado com a platéia. Ela quer brincar junto. Conceito fechado demais a platéia se desliga e fica pensando em outras coisas. Óbvio que não precisamos ser didáticos demais, mas devemos ter o conceito pronto. A platéia não é burra, ela joga junto, mas se jogamos com ela. Não a tratamos apenas como seres receptivos.
2) Qualidade técnica do elenco: não confundir com ficha técnica aceita no PROAC. Qualidade técnica passa por formação sim, mas nem sempre ela vem de uma educação formal. Vem da experiência de vida e também de experiência na área, com bons profissionais, éticos na sua conduta, parceiros no aprendizado, compreensivos no tempo de cada um. Desde os atores, passando pelos diretores, equipe técnica.
3) Trabalho de continuidade: isso é ferida grave e reconheço que é muito complicado. Como manter um grupo junto por tanto tempo? Não sei ao certo, mas é completamente perceptível a diferença de espetáculo de elenco e espetáculo de grupo. Óbvio que é possível que um grupo pertença a poucos integrantes e aí vamos chamando outros para comporem. Mas será continuidade dos trabalhos que criará uma relação entre o próprio elenco e desse elenco com o público. É como se a platéia seguisse aquele pensamento e fosse desvendando junto a evolução daquele pensamento. Se não há continuidade, o público também não continua. E não adianta enganar. Ou é de continuidade mesmo, ou é evento específico. E nesse caso a platéia até vai, mas sabe do que se trata.
4) Acabamento: nada melhor do que a gente ver que o figurino, a maquiagem, o cenário, a luz, a recepção e até mesmo os agradecimentos fazem parte daquilo que chamamos de espetáculo. Não é porque acabou a peça que a platéia se desligou do espetáculo. Mas isso até que é de menos. O que citei acima é fundamental para que fique a essência da proposta e não o improviso. Acabamento é um signo de um trabalho onde todo o conceito está amarrado e com ligação com a peça. Gente, chega de TNT né. Não importa se é bacana pra aquilo, mas não né.
Esses elementos já vejo que não terminam, mas já iniciam o pensamento - que não é segredo pra ninguém vamos combinar - se temos grupos amadores (agrupamento) ou de referência (em eterna formação).
Não esgota, mas já é um bom começo não é mesmo?